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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ARTIGO - Quem não gosta de samba, bom sujeito não é...

  
* Arnaldo Jordy 
  
Em poucas ocasiões a cultura popular aflora de forma tão espontânea como no carnaval, essa festa de origem remota faz parte do calendário cristão, sempre nos quatro dias que antecedem a quaresma, o período de 40 dias antes da Semana Santa. É um período de liberdade antes da contrição, um extravasamento para o povo.
   
Foi assim que o carnaval, trazido da Europa para o Brasil, foi apropriado pelos recém-libertados da escravidão e abandonados à própria sorte nos morros do Rio de Janeiro, para onde foram depois de migrar do Vale do Paraíba, em São Paulo, na “crise do café”, no final do século 19. Antes mesmo de 13 de maio de 1888, os abolicionistas do Rio já usavam desfiles carnavalescos para passar sua mensagem, exibindo, em 1881, carro alegórico com a imagem de Dom Pedro II manchada pela escravidão. Em 1889, marchinhas de carnaval festejavam a tão sonhada Abolição, que não foi o bastante para apagar injustiça da escravidão.
   
Nos morros aflorou o samba e a sensacional ópera popular que são os desfiles das agremiações carnavalescas, a ponto de se tornarem grandes atrações turísticas internacionais que mobilizam comunidades durante o ano todo, com um trabalho social de inclusão através da arte, seja pelo aspecto cênico da história que é contada na avenida, seja pela música produzida pelas orquestras de percussão das baterias. O carnaval, além de arte e cultura, é uma cadeia de geração de renda que movimentou no ano passado mais de R$ 3 bilhões no Rio de Janeiro. Lamentavelmente, nossos governantes locais acham que investir no carnaval é desperdício.
   
O Pará tem íntima relação com o carnaval das escolas de samba. Uma de nossas melhores escritoras, Eneida de Moraes, foi a principal historiadora do carnaval carioca. Em Belém, temos uma das agremiações mais antigas do Brasil, o Rancho Não Posso Me Amofiná, e outras que surgiram da manifestação espontânea dos paraenses, como o Império Pedreirense, Quem São Eles, Bole Bole, Xodó da Nega, Deixa Falar, Grande Família, Piratas da Batucada, Escola de Samba da Matinha e tantas outras que ainda resistem. Essas escolas já fizeram em Belém o terceiro ou quarto melhor carnaval do Brasil, com espetáculos grandiosos. Sambas-enredo paraenses, como Quarup, foram elogiados Brasil afora por compositores como Chico Buarque.
   
O Pará também foi tema de carnavais campeões no Rio de Janeiro, como a “Festa do Círio de Nazaré”, da Estácio de Sá, em 1975, e “O Mundo Místico Dos Caruanas nas Águas do Patu-anu”, da Beija-Flor, em 1998. Nosso carnaval produziu figuras históricas como o casal de mestre-sala e porta-bandeira Rubão e Margarida, e tantos outros.
   
Com o passar dos anos, entretanto, o carnaval foi perdendo o apoio, tratado como dispensável, empobreceu e quase desapareceu. No ano passado não tivemos o desfile. Este ano, consegui o apoio do governo do Estado e mais recursos de emenda parlamentar, que foram os únicos que foram pagos às escolas antes do desfile. Aliás, até hoje ninguém entende por que os recursos frequentemente saem depois do evento, o que encarece muito os custos das agremiações. 
   
Graves e variados foram os problemas do carnaval com a mudança para a Marechal Hermes, o local de concentração dos brincantes estava alagado pela forte chuva e pela proximidade da maré alta, um lugar sem segurança, onde, se alguém precisasse de atendimento nas arquibancadas, não teria como ser retirado de maca pelas laterais, mas somente pelas extremidades da pista, únicas saídas do local do desfile.
   
Sem dúvida, a Aldeia Amazônica tem muitas falhas e não é o lugar ideal, mas o desfile não poderia ter saído de lá para um lugar pior. A Aldeia foi construída com dinheiro público para servir à população e em 2016 recebeu um público de mais de 50 mil pessoas para o desfile, enquanto este ano, cerca de 1.500 compareceram, número comparável aos brincantes de apenas uma das grandes agremiações. Em um incrível retrocesso, havia mais gente desfilando nas escolas do que pessoas na plateia. Portanto, se não for para construir um novo equipamento, que se mantenha a Aldeia Amazônica, com os ajustes que forem necessários.
   
O que não se pode é tratar o carnaval das escolas de samba com tal descaso e falta de planejamento, além do total desprezo com as comunidades que trabalham durante o ano todo para produzir um espetáculo que pode ser mais bem aproveitado do ponto de vista turístico e de negócios. O ressurgimento do carnaval de rua de Belém na Cidade Velha, com todos os seus problemas, mostra o potencial dessa festa entre os belenenses, que só precisa se melhor organizada para render lucro e satisfação para todos.
    

* Arnaldo Jordy é deputado federal - PPS/PA
  
  

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

ARTIGO - Belém sem presente e sem folia

  
 
   
* Arnaldo Jordy
  
Belém recebeu uma triste notícia na véspera de seu aniversário de 401 anos. O carnaval da nossa cidade não terá o tradicional desfile oficial das agremiações carnavalescas. A alegação foi a crise financeira que atinge o país. A Prefeitura de Belém argumenta que não pode arcar com essa despesa. Infelizmente, o carnaval das escolas de samba, outrora tão pujante, está sob a ameaça de entrar para o rol das coisas que Belém já teve.
  
Parte importante da nossa cultura popular, as escolas de samba e blocos mobilizam as comunidades de dezenas de bairros de Belém durante o ano todo. Através delas, a população manifesta suas opiniões, faz homenagens, expressa sua irreverência, aquece a economia, gera empregos, resgata tradições, se fantasia e se diverte.
  
Essa ópera popular que é o desfile das escolas de samba, em que o centro das atenções é o povo humilde conduzido por uma verdadeira orquestra de percussão, que são as baterias das escolas, retrata nossa cultura e nossa época em seus enredos. Já em 1891, por exemplo, um bloco do Rio de Janeiro desfilou com a figura de D. Pedro II coberta pela mancha da escravidão que ainda existia no Brasil, um dos últimos países a abolir essa abominação. 
   
O samba se desenvolveu nos morros para onde foram mandados os escravos libertos, sem educação, sem apoio, sem trabalho. É uma legítima manifestação cultural dos excluídos. É o grito dos desamparados que se faz ouvir a cada ano, no carnaval, porque representa a cultura de origem afro e europeia; a cultura brasileira.
  
Belém se orgulha de ser a terra natal de Eneida de Moraes, a autora da História do Carnaval Carioca, que mostra a influência dessa manifestação cultural na vida do povo brasileiro. Belém se orgulha também de ser a terra do Rancho Não Posso Me Amofiná, do Quem São Eles, da Embaixada do Império Pedreirense, do Bole-Bole, dos Piratas da Batucada, da Grande Família, da Matinha e de tantas outras agremiações que existem e que existiram e que fizeram história no carnaval de Belém.
  
A crise que assola o país é inegável e se apresenta muito pior em outros Estados e cidades, mas isso jamais poderia ser pretexto para abolir o desfile da maior manifestação cultural do país, na cidade que já figurou entre os cinco maiores carnavais do Brasil. Imagina se os governantes do Rio de Janeiro, Salvador, Recife ou mesmo de São Paulo cometessem o desatino de cancelar o carnaval, qual seria a reação do povo? Belém já padece com o atraso e a falta de condições dignas de moradia, de transportes, de abastecimento de água, das altas tarifas de energia, e de tantos outros problemas que atormentam os seus moradores nesse aniversário de 401 anos.
  
Neste aniversário e nos últimos quatro anos, a população sonhava com serviços públicos de qualidade em saúde, educação, infraestrutura urbana etc. Esses seriam presentes bem melhores para a cidade do que apenas um bolo gigante e um show musical, que se repetem ano após ano, e mais nada, nenhuma obras estruturante, além do BRT, que se arrasta há anos, entra mandato, sai mandato, sem conclusão, sem uso efetivo, sem utilidade.
   
É urgente que prefeitos e vereadores aumentem a capacidade de planejamento e gestão dos recursos públicos. Segundo levantamento nacional publicado pelo TCU em maio de 2015, 42,2% das prefeituras estão em estágio inicial de governança pública, ou seja, têm baixa capacidade de planejar, formular, programar, executar e dar transparência às políticas públicas.
  
Um bom exemplo de gestão é Vitória (ES), que saiu de uma crise permanente de segurança pública, em que era acossada pelo crime organizado, para se tornar uma das melhores cidades para se viver, multipremiada pela gestão competente dos últimos anos. Ganhou prêmios em saúde, educação, transparência, eficiência e bem-estar urbano e agora está abaixo da média nacional em número de homicídios; e foi incluída no rol das cidades preparadas para o turismo da Embratur.
   
No Índice de Bem-Estar Urbano das capitais do país do Observatório das Metrópoles, coordenado pela UFRJ, no ano passado, Belém ficou em um sofrível 25º lugar entre as 27 capitais brasileiras, à frente apenas de Porto Velho (RO) e Macapá (AP).
   
Há uma dificuldade permanente em se definir estratégias de longo prazo. Além disso, não só Belém, mas todas as cidades brasileiras seriam beneficiadas por uma redefinição dos direitos e deveres de municípios, Estados e União, com o fortalecimento dos municípios, onde estão as maiores demandas dos cidadãos. 
   
Será que não haveria outra saída no caso do carnaval? A crise econômica é real e está aos olhos de todos, mas a prefeitura não poderia, em diálogo com as agremiações, reduzir os carros alegórico, os tripés, fazer algo mais modesto? E quem vai indenizar os gastos já feitos até agora, por conta da subvenção que viria? Afinal, o prefeito que assume agora, já estava à frente da gestão. Com o planejamento adequado, até mesmo o carnaval das escolas de samba estaria garantido, não só para atender aos anseios desse segmento cultural, como também para movimentar a cidade e seu turismo, gerar emprego e renda, para uma cidade onde sentiríamos maior prazer em viver. Pobre Belém, sem presente no seu aniversário e sem folia.
   
    
* Arnaldo Jordy é deputado federal pelo PPS/PA